A construção de uma nova taxiway paralela à pista do Aeroporto Governador José Richa voltou ao centro das discussões em Londrina após a entrada do grupo mexicano ASUR na administração dos aeroportos anteriormente controlados pela Motiva.
A Prefeitura pretende apresentar novamente a demanda à administradora e buscar uma solução para uma obra que há anos aparece entre as principais reivindicações relacionadas à infraestrutura aeroportuária da cidade.
Mas existe uma questão central que precisa ser compreendida: a taxiway ainda não é uma obra contratada, não existe cronograma para sua construção e, principalmente, ainda não está definido quem pagará a conta.
O que está sendo proposto?
A proposta consiste na implantação de uma taxiway aproximadamente paralela à RWY 13/31, permitindo que as aeronaves utilizem uma via própria para circulação em vez de permanecerem na pista de pousos e decolagens durante determinadas etapas do taxiamento.
Operacionalmente, uma estrutura desse tipo pode reduzir o tempo de ocupação da pista, conhecido como Runway Occupancy Time, facilitar a sequência entre chegadas e partidas e diminuir a necessidade de backtrack, situação em que uma aeronave utiliza a própria pista para se deslocar até o ponto de saída ou de decolagem.
Isso não significa que o Aeroporto de Londrina não possua pistas de táxi atualmente. O projeto discutido é de uma nova estrutura paralela, destinada a ampliar a capacidade e a eficiência do sistema de movimentação no solo.
Os projetos foram entregues à Prefeitura em março de 2026 após doação realizada pela Pado, por iniciativa do empresário Alfons Gardemann. O trabalho foi desenvolvido pela MSE Engenharia com participação técnica de servidores municipais e apoio da então concessionária Motiva. Segundo a Prefeitura, a estrutura terá aproximadamente 2 km de extensão e cerca de 50 mil m² de área pavimentada.
O escopo inclui estudos geométricos, terraplenagem, drenagem, pavimentação, sinalização horizontal e vertical, balizamento luminoso e instalações elétricas. A MSE classifica publicamente o trabalho como desenvolvimento dos "Projetos Básicos" da nova taxiway, embora comunicados da Prefeitura e matérias locais também tenham utilizado a expressão "projeto executivo".
Quanto custaria?
As estimativas mudaram conforme os estudos avançaram.
Em novembro de 2025, quando o projeto ainda estava em elaboração, valores entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões eram mencionados pela Prefeitura. Em março de 2026, após a apresentação dos projetos, o investimento previsto já era de aproximadamente R$ 70 milhões.
Esse valor hoje é utilizado como principal referência nas discussões sobre a obra.
O problema é que a construção da taxiway não foi incluída entre as obrigações previstas no contrato de concessão do Aeroporto de Londrina.
A mudança da Motiva para a ASUR também não modificou essa situação.
Em 1º de setembro de 2026, a Motiva concluiu a venda de 100% de sua plataforma aeroportuária ao Grupo Aeroportuario del Sureste, ASUR. Com a transação, a ASUR passou a controlar a holding responsável pelos ativos aeroportuários, incluindo Londrina. Não houve, portanto, uma nova concessão ou um novo contrato específico para o aeroporto londrinense. Houve mudança no controle da empresa que administra a concessão existente.
A própria ASUR informou que acompanha as discussões e vem fornecendo dados e apoio técnico, mas também reforçou que a nova taxiway não integra as obrigações contratuais atuais.
A discussão chegou à Justiça
A questão é mais antiga que a atual concessão.
Em 2016, ainda durante a administração da Infraero, Município e governo federal estabeleceram tratativas relacionadas à ampliação da infraestrutura aeroportuária. A Prefeitura posteriormente realizou desapropriações de áreas no entorno do sítio aeroportuário, mas parte das intervenções esperadas não avançou antes da concessão do aeroporto à iniciativa privada.
Quando o aeroporto foi concedido em 2021, a construção da nova taxiway não entrou como obrigação da concessionária.
Em dezembro de 2024, o Município levou a discussão à Justiça Federal por meio da Ação Civil Pública nº 5024081-82.2024.4.04.7001.
Uma audiência de conciliação realizada em 6 de agosto de 2026 revelou um ponto especialmente importante para compreender a situação atual.
| "Termo de Audiência - Parte 1" |
Durante a audiência, a ANAC afirmou que a área desapropriada pelo Município possui importância para a segurança operacional por ampliar a margem lateral desobstruída da pista, mas observou que essa área vai além dos mínimos exigidos atualmente.
| "Termo de Audiência - Parte 2" |
Sobre a taxiway paralela, a Agência apresentou uma avaliação ainda mais relevante.
Segundo a ANAC, utilizando uma projeção considerada bastante agressiva de crescimento das operações, a pista paralela de taxiamento somente seria tecnicamente necessária por volta de 2030. Em projeções mais próximas dos índices de crescimento efetivamente observados, essa necessidade poderia ocorrer apenas por volta de 2050.
Isso não significa que a obra seja desnecessária.
Significa que, segundo a avaliação apresentada pela ANAC naquele processo, o volume operacional atual do aeroporto ainda não tornou a taxiway uma infraestrutura obrigatória.
Londrina quer se antecipar à necessidade
A resposta do Município durante a audiência ajuda a entender por que a Prefeitura continua defendendo a construção.
Londrina reconheceu como satisfatórias as informações técnicas apresentadas pelos órgãos federais, mas argumentou que a intenção sempre foi preparar o aeroporto antecipadamente para o crescimento futuro, em vez de esperar que a demanda alcance um ponto crítico para somente então iniciar uma obra dessa dimensão.
O Município propôs, como tentativa de composição, que ao menos a pista adicional de taxiamento fosse construída em prazo mais próximo.
É justamente nesse ponto que aparece a pergunta de aproximadamente R$ 70 milhões.
A ANAC ponderou que a inclusão de uma obra não prevista na concessão poderia exigir reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, inclusive com possibilidade de reflexos nas tarifas cobradas dos usuários.
A Motiva, ainda responsável pela administração naquele momento, adotou posição semelhante, afirmando que despesas adicionais não previstas contratualmente deveriam estar acompanhadas do correspondente reequilíbrio. O Município, então, sugeriu que fossem analisadas outras formas de custeio.
Ao término da audiência, as partes concordaram em avaliar a proposta municipal de construção da taxiway em prazo mais curto e eventuais outras alternativas de composição. Não houve, porém, decisão determinando a execução da obra.
Governo Federal, Estado ou concessionária?
Hoje, os principais caminhos discutidos passam pela obtenção de recursos do Governo Federal, participação do Governo do Paraná ou inclusão do investimento na concessão mediante algum mecanismo contratual e financeiro.
Em março, o próprio prefeito Tiago Amaral já havia declarado que essas três possibilidades estavam sendo avaliadas.
A chegada da ASUR criou uma nova oportunidade de negociação porque coloca do outro lado da mesa um grupo cuja atividade principal é justamente a administração aeroportuária. Entretanto, juridicamente, a troca de controlador não transfere automaticamente para a ASUR uma obrigação que não existia no contrato anterior.
A Prefeitura informou em setembro que pretende reunir-se com a empresa para apresentar novamente as prioridades de Londrina e buscar alternativas para viabilizar o investimento.
Projeto existe. A obra ainda não
A nova taxiway representa uma melhoria relevante para o Aeroporto de Londrina e pode proporcionar maior eficiência ao sistema de pistas, principalmente caso o número de movimentos cresça nos próximos anos.
Mas é necessário separar expectativa de realidade.
O projeto técnico existe. A área necessária foi objeto de desapropriações. A demanda é defendida pela Prefeitura e por entidades locais. Existe uma ação judicial em andamento e a proposta já foi formalmente discutida com ANAC, União, Ministério de Portos e Aeroportos e concessionária.
O que ainda não existe é a definição de quem financiará aproximadamente R$ 70 milhões, qual será o instrumento jurídico utilizado, quem contratará a execução e quando a construção poderá efetivamente começar.
A entrada da ASUR pode representar uma nova etapa da negociação, mas não significa que a taxiway esteja garantida.
Depois de anos discutindo onde a pista deverá ser construída e desenvolvendo o projeto para viabilizá-la, Londrina chegou agora à pergunta mais objetiva de todas:
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